Baralho de Cartas 42

Baralho de Cartas 42 Um dos aspetos miríficos da ocupação profissional sem patrões é, precisamente, esta sensação doméstica, mas sobretudo poder dispensar os colegas canalhas. Não aturar esses poderes intermédios, os capatazes, os fascistas caga-tacos. Em cada ínfima possibilidade de fugir da mira deles, afastemo-nos dos canalhas, não lhes damos alimento, que apodreçam na sua jaula infecta. Demorei demasiado tempo a identificar os prevaricadores e a proteger a minha preciosa energia das relações tóxicas (à parte a expressão imbecil), é mesmo uma questão de auto-proteção.

14.10.2026 | por Marta Lança

Chão comum

Chão comum De tanto ser invocado no discurso político, o «chão comum» parece uma evidência. Mas quem cabe nele e quem fica de fora? Entre a promessa de consenso e as práticas de partilha, há diferenças decisivas. Das reflexões de Silvia Federici e José Castiano às hortas urbanas, às redes de cuidado e aos espaços culturais independentes, interessa-me pensar o comum como algo que fazemos juntos: uma construção inacabada, atravessada por conflitos, responsabilidades e relações de interdependência. Um chão que só existe enquanto houver quem o faça.

11.10.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 41

Baralho de Cartas 41 Cioran escreveu que no meio de um tal sufoco é “reconfortante contemplar um mendigo. Ele, ao menos, não mente aos outros nem a si próprio: a sua doutrina, se é que a tem, encarna-a; não gosta do trabalho e demonstra-o; como nada deseja possuir, cultiva o seu despojamento, condição da sua liberdade. O seu pensamento resolve-se no seu ser, e o seu ser no seu pensamento. Falta-lhe tudo, é ele próprio, dura: viver imediatamente a eternidade é viver apenas um dia de cada vez. Por isso, para ele, os outros são presa da ilusão. Se depende deles, vinga-se observando-os, especialista que é do reverso dos sentimentos «nobres». (...) Porque é preciso, a todo o preço, impedir aqueles que têm demasiado boa consciência de viver e morrer em paz."

08.10.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 40

Baralho de Cartas 40 Escrevo-te numa carruagem escaldante do Intercidades, no centro do Algarve, com 30 minutos de atraso e o ar condicionado avariado. Faro está do lado de fora da janela, e eu corri o Barlavento e o Sotavento em menos de uma semana. Dá para sentir a forma s base de um país, aqui mesmo a cutucar Marrocos. (Espera, vou mudar de carruagem, não se aguenta o calor). O Algarve é o faroeste do esquema, dos que tentam orientar-se, do sem recibo, do que se foda o Estado afinal «os políticos são todos iguais» e viva a Chegolândia. Os foras da lei são todas as escalas na terra das transações e da extração de recursos, naturais e humanos.

29.09.2026 | por Marta Lança

Comunicado conjunto pela Unidade Guiné-Bissau-Kabuverdi

Comunicado conjunto pela Unidade Guiné-Bissau-Kabuverdi Nós, organizações e coletivos abaixo-assinados, compostos por guineenses e kabuverdianu unidos pelo compromisso histórico com a unidade e armundadi entre os nossos povos, temos acompanhado com profunda preocupação os recentes acontecimentos envolvendo trabalhadores guineenses residentes em Kabuverdi, particularmente na cidade da Praia, assim como os discursos e informações que, na sequência desses acontecimentos, têm circulado nas redes sociais.

23.09.2026 | por vários

Baralho de Cartas 39

Baralho de Cartas 39 O espírito fica de atalaia para o oculto, de rabo esticado como um cão de caça. A repulsa que trava o colher do fruto vem do retrair covarde junto ao delírio, enquanto o princípio vital já baba veneno com o que adivinha. Antes mesmo que se decida a atravessar o entusiasmo, já o medroso conta os cabelos que vai perder, os nervos que queimou, o tempo que levará a redescobrir a cama. Nunca fui capaz de fabricar nada vagarosamente. As linhas passeiam sob o olho do diabo, até que as escarre para a valeta.

23.09.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 38

Baralho de Cartas 38 Regressei hoje de São Tomé, com o coração e a cabeça a urdir novas facetas dos infernos verdes ou do «paraíso do caos», como um amigo de lá chama à sua ilha. Foi uma semana proveitosa de trocas, reencontros e aprendizagem no Festival do Fim do Mundo, cujo programa continha temas como cidades climaticamente neutras, responsabilidade social, património cultural, empreendedorismo e turismo sustentável, entre outros propósitos evangelizadores do capitalismo verde.

16.09.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 37

Baralho de Cartas 37 O menor acidente me perturba, passado tanto tempo sem tocar o chão, qualquer tremor me deixa o sangue a ferver. Não escapo ao absurdo que colide com a minha incoerência. Tento evitar as piadas que fazia, as citações abusivas de Kafka, e a mistificação de uma tese qualquer. A crise é uma ruptura das teias de uma familiaridade prolongada, os slogans literários ficam para os onanistas palacianos. Ando com um isqueiro no bolso para queimar as barbas dos mercadores, para os prospectos que escondem a realidade.

09.09.2026 | por Ricardo Norte

Amílcar Cabral e a reprodução da vida

Amílcar Cabral e a reprodução da vida Pensar a reprodução da vida a partir de Amílcar Cabral é pensar a terra, a resistência e as condições materiais da liberdade. Da Guiné-Bissau a Cabo Verde, da luta anticolonial às violências racistas do Portugal contemporâneo, o seu pensamento continua a ensinar-nos que defender a terra é defender o ser humano — e que nenhum povo se liberta sem organização, comunidade e djunta-mô.

08.09.2026 | por Benvinda Lima

III DECLARAÇÃO Panafricanista de Lisboa (2026) Em defesa da terra

III DECLARAÇÃO Panafricanista de Lisboa (2026) Em defesa da terra Dizemos que o capitalismo racial, erguido sobre a escravatura transatlântica, a colonização e o imperialismo, continua a reger a ordem mundial. Este sistema tem rostos, nomes e endereços. São Estados, empresas transnacionais, bancos, organismos financeiros internacionais, alianças militares e elites económicas e culturais do Norte Global que exercem ingerência nos nossos países para controlar recursos, condicionar economias e limitar a nossa soberania.

08.09.2026 | por várias

Baralho de Cartas 36

Baralho de Cartas 36 Tropecei na tua frase “o tempo morto arrancado como dente podre”, um minuto antes de abrir a boca ao dentista. Enquanto as suas mãos de luvas suaves se empenham em perfurar o meu osso maxilar, imagino obras em andamento, terras a serem rebentadas, barrigas de baleia esventradas, mandíbulas de tubarão que são estruturas cartilagem, não osso. Confirmo que o cheiro do próprio sangue não perturba tanto como o dos outros.

01.09.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 35

Baralho de Cartas 35 O que significa defender a Europa? O que é que estamos a defender quando o fazemos? O livre curso de bens e gentes? O comércio livre? Ao contrário do que se pensa, as principais inovações nazis não terminaram com a guerra, mas proliferaram com uma força desmesurada pela Europa fora, como nos diz Chapoutot no livro “livre de obedecer”. Os nazis defendiam uma concepção não autoritária do trabalho, em que o trabalhador já não era um subordinado, mas sim um "colaborador”.

24.08.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 34

Baralho de Cartas 34 Já estou a imaginar-me na areia, um chinelo perdido, livro meio deformado pela água com um recibo de supermercado a fazer de separador, conchinhas à volta do umbigo. Está muito quente e ouve-se, ao longe, o som repetitivo das ondas, misturado com notícias sobre incêndios, escândalos políticos, e vozes de trabalhadores sazonais. Uma ventoinha roda lentamente, sem refrescar ninguém.

24.08.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 32

Baralho de Cartas 32 Reconheço esse céu transformado em superfície lisa de que falas. Onde até o tempo morto é um intolerável desperdício. O sentimento de expropriação da vida, de sermos progressivamente afastados da experiência em nome da gestão mesquinha das nossas breves vidas, numa planície de ninguém. Mas insisto em procurar acidentes no terreno. Intervalos frágeis e imperfeitos onde seja possível respirar e imaginar outros modos de habitar o mundo e o tempo. Na noite mais popular de Lisboa, estive no arraial do RDA, nos Anjos. Lá dançámos, marionetas animadas por dedos tremidos de DJs e copos de cerveja. Fragmentos de vida antiga reativados num olhar de esguelha, uma certa suspeição. Enfim, somos pouco piedosos uns com os outros, mas, no fundo, no fundo, há carinho. Na verdade, gosto quando figuras que admiro voltam a ser de carne, com cabelo, rabos e purpurinas. E comem sardinhas.

05.08.2026 | por Marta Lança

Desde o mirante das casas

Desde o mirante das casas Nunca morei sozinha: sempre partilhei casa, com família ou amigos. Por razões práticas, claro, para dividir despesas e responsabilidades, mas também porque partilhar casa é uma escola intensa em atualização permanente. Dá-nos novas perspetivas sobre aquilo que julgávamos saber; dicas e soluções para pequenos e grandes problemas. Obriga-nos a ceder, a negociar e a constatar que o normal para mim pode ser insuportável para o outro: nomeadamente no que toca a critérios de barulho, limpeza ou acumulação. Uma pequena comunidade doméstica acrescenta-se, ampara-se e, quando alguém perde a chave, há menos hipótese de ficar do lado de fora.

16.07.2026 | por Marta Lança

Mário Pinto de Andrade: uma visão cultural da Frente Leste - Prefácio

Mário Pinto de Andrade: uma visão cultural da Frente Leste - Prefácio A partir das entrevistas, dos dados recolhidos para o inquérito e da observação das dinâmicas interpessoais que se impunham nas bases guerrilheiras, Andrade começou a escrever um ensaio intitulado «Sociologia da guerra e ideologia», que em algumas das versões reunídas neste volume numa edição crítica, também leva o subtítulo de «Contribuição ao debate sobre a crise actual do MPLA». Embora inacabado, o ensaio, especialmente na sua primeira parte – a mais desenvolvida –, constitui uma reflexão lúcida sobre os problemas que alimentaram a crise do movimento, numa tentativa de fundamentar a práxis do MPLA numa compreensão profunda da realidade social subjacente.

02.07.2026 | por Elisa Scaraggi

Baralho de Cartas 27

Baralho de Cartas 27 A luz emagrece nos buracos das persianas enquanto espero que o vento volte as paredes do avesso. Lembro-me do Cesariny, do homem intensamente livre na praia mais pequena, nas dunas mais pequenas, no poço mais pequeno... Esse homem que sem saber arrasta uma época sem calendários. O Mário andava com ele, sem saber se era o caminho ou ele quem havia de cessar, e por isso andavam. Não ficavam a ver os delgados raios que mosqueam o quarto, encurralado no tempo a conta-gotas, na vida esfarelada dos acamados, para quem tudo está diluído, triturado, não vá um grumo entupir-lhe as veias.

01.07.2026 | por Ricardo Norte

Manual para um Bom Festival

Manual para um Bom Festival O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação. Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes. O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio. O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.

23.06.2026 | por Maria Giulia Pinheiro e Gisela Casimiro

Baralho de Cartas 26

Baralho de Cartas 26 Pouco me importam as críticas ao género ou a sua apropriação pelo mercado editorial, menos ainda os autores de auto-ajuda disfarçada de autoficção. Mas “La vie, il faut la mettre en scène…”, só assim se consegue expressar a sobrecarga invisível e destrutiva no quotidiano das mulheres como faz, por exemplo, a personagem Jeanne Dielman no filme de Chantal Akerman. Trazer a vidinha ao barulho é um processo que pode ser narcísico ou radical, depende da abordagem e do engenho de quem esmurra esse pão. Na pior das hipóteses, servirá como exercício de aceitação.

23.06.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 25

Baralho de Cartas 25 Ando assustado, a convencer-me que não. Leio sobre a alegria da afirmação, sobre o trabalho positivo de meter uma pedra à frente da outra, de ser a única maneira de a mudança ter um chão que dê para dançar. Ando num estiramento entre o que temo e o que quero, fico demasiado encostado a mim, só quando me afasto sei onde estou.

18.06.2026 | por Ricardo Norte